| Joana Souza luta pela tradição farinheira do fantástico Vale do Juruá |
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Joana de Souza: trabalho diuturno pela qualidade
Agência Amazônia
RIO
BRANCO, AC – Joana Maria Leite de Souza não pára. Acaba de escrever um projeto
para trabalhar com castanha-do-Brasil. Escreveu também uma cartilha enfatizando
a qualidade da castanha e preparou material para a recente Expojuruá, em
Cruzeiro do Sul. Antes de responder à Agência Amazônia, a pesquisadora da
Unidade do Acre da Embrapa viajou para São Paulo duas vezes, foi ao Estado de
Roraima e revisou um artigo de revista.
Acompanhada
de outros pesquisadores da Embrapa-AC, ela participou no final do mês passado, em
Puerto Maldonado (Madre de Dios, Peru) de uma reunião internacional sobre
castanha. Projetou leiautes do
caminhão do Núcleo de Tecnologia móvel de mandioca e do laboratório de Cruzeiro
do Sul.
Passou
noites e madrugadas acompanhando a prensagem da massa para qualificar a
farinha. A seguir, os principais pontos da entrevista concedida à Agência
Amazônia de Notícias:
Quando
começou a pesquisar a farinha mandioca no Acre?
JOANA
SOUZA – Começamos a nos interessar pela qualidade da farinha no início de 2000,
quando ministramos o primeiro curso de Boas Práticas de Fabricação de Mandioca
na região de Cruzeiro do Sul. A gente, como bom acreano, sempre soube ou ouviu
falar da fama da farinha dessa cidade. Identificamos aí essa demanda para a
cadeia produtiva.
O
que a Embrapa tem feito para melhorar esse mercado? Iniciamos uma campanha de qualidade da farinha de mandioca em todo o estado, principalmente em Cruzeiro do Sul e em Capixaba (município da BR-364), juntamente com o Sebrae. Em Sena Madureira, com os companheiros da Seprof, hoje Seaprof (Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar). Em 2005, aprovamos o Projeto Competitividade e eficiência do agronegócio da farinha de mandioca no Vale do Juruá (Farinhavaj), novamente com o Sebrae e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Entre outras metas, a qualidade da farinha era um desafio, considerando-se o modo de fazer deles. Tínhamos que entrar nas agroindústrias no Vale do Juruá, muitas e muitas vezes, nos horários e tempos deles, para entender como se dava o processamento dessa farinha famosa. Com muito compromisso e vontade de realizar um trabalho que deixasse um aprendizado e, resguardando o conhecimento deles, conseguimos conquistar os produtores.
E qual
foi o resultado disso?
Mercado Samambaia, um dos pontos de distribuição de farinha
Nós
conseguimos avançar em temas antes nunca enveredados, como definição do
fluxograma de produção, tempo de prensagem, temperatura de tostagem, tipos de
tostagem, teor de acidez, composição química da farinha, qualidade
microbiológica, vida-de-prateleira, classificação, enfim, variabilidade da
farinha. Para quem conhece a região, sabe o que estamos falando: de ficar
noites e noites acompanhando a prensagem da massa, uma vez que essa etapa pelo
modo tradicional que eles adotam inicia-se no final da tarde e termina lá pelas
2h30, 3h da madrugada. Isso já deve ocorrer numa quarta-feira, quando o
produtor e familiares começam as etapas finais de processamento da farinha.
Quais
são essas etapas?
Elas
constam da retirada da prensa, destorroamento, peneiração e tostagem final.
Isso, numa sincronia e precisão que equipamento nenhum teria. E, lá pelas 10,
11h da manhã, um produto branquinho, ou amarelo-creme ou com cheirinho gostoso
de coco está pronto para ser ensacado e transportado para o mercado de Cruzeiro
do Sul, na sexta-feira. É a farinha que ficou pronta e será, muitas vezes,
vendida ali mesmo na Casa de Farinha, onde os compradores já aguardam ansiosos,
ou então, na feira de sábado.
Com
esse esforço, mantém-se, então, a tradição do Juruá... Sim. No final do Farinhavaj
conseguimos entender que esse processo, o trabalho dessa gente deveria ser
protegido. E para isso vieram novos projetos e parceiros, possibilitando que
filhos e netos dos produtores de farinha de Cruzeiro do Sul mantenham a tradição
e que os consumidores possam desfrutar de um produto tão acreano e com a
qualidade que merece: a farinha conhecida como de Cruzeiro do Sul, realmente
oriunda daquela região, com selo de qualidade assegurado. (M.C.)
CRUZEIRO
DO SUL, AC – Alto-falantes das lojas anunciam as ofertas na manhã de sábado nesta
movimentada cidade do extremo-oeste brasileiro. “Venha participar do arraial de
ofertas da Cruzeirense. Temos os melhores planos para você”, ouve-se num deles.
São 8h e o comércio está com todas as portas abertas, apresentando promoções
numa mistura de sotaques de locutores nativos e de sulistas.
Na
segunda cidade mais importante do Acre, onde é fabricada a melhor farinha de
mandioca do Brasil, compra-se goma a R$ 5 o litro, farinha a R$ 65 a saca de 50
quilos, beiju e tapioca a R$ 1 e R$ 2 a unidade, em tamanho pequeno e grande, e
farinha de coco a R$ 120. Cruzeiro do Sul é chamada de “meca da farinha”, um
reconhecimento manifestado por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) no estado e de Cruz das Almas (BA).
A
farinha vendida nos cinco mercados municipais de Cruzeiro vem das colônias
pelos ramais (vicinais) de chão batido, acomodada no chão das camionetes
paus-de-arara ou em carros particulares e pequenas embarcações. Alcança, por rodovias
e embarcações fluviais, os estados de Rondônia, Mato Grosso e Amazonas.
Torrada duas vezes
Cruzeiro
do Sul fica no Vale do Juruá, a cerca de 700 quilômetros de Rio Branco, é a
porção nordestina mais expressiva do Acre. Aqui, seus pequenos fabricantes
utilizam a matéria-prima com um jeito especial. “A farinha de coco é torrada
duas vezes e demora mais” explica dona Maria Gomes de Oliveira, 60 anos, mãe de
12 filhos “todos vivos”, quase todos farinheiros. Ela tem banca no Mercado Samambaia e recebe o
produto da Colônia Belo Jardim, na saída para o município de Rodrigues Alves.
“Em
média, cada produtor fabrica três a quatro sacas por dia. Tem qualidade muito
boa, tanto que sempre vendem outras farinhas por aí, como se fosse a nossa”,
explica Cleomildo Cunha, 53, encarregado da administração dos mercados.
Pesquisa
Mensal da Cesta Básica divulgada no mês passado pelo Governo do Acre indicou
redução de 24,2% no custo dos alimentos no índice acumulado de julho e agosto
em Cruzeiro do Sul. Na comparação com julho, o gasto com a cesta básica caiu
15,92% em agosto, confirmando o impacto positivo da reabertura da rodovia
BR-364.
Centro comercial de Cruzeiro do Sul
● Área: 7,7 mil Km ² e clima equatorial. Sua
população é de 77 mil habitantes (IBGE 2009). Possui um PIB de R$ 391,9 mil
(2005) e renda per capita (por cabeça) de R$ 4,6 mil.
● O nome da
cidade foi inspirado na Constelação Cruzeiro do Sul. Criada por decreto em 12
de setembro de 1904, quando o coronel do Exército Gregório Thaumaturgo de
Azevedo instalou a sede provisória do município, nom local denominado
"Invencível", na foz do Rio Môa.
● A
fundação foi oficializada em 28 de setembro de 1904, quando a sede do
Departamento do Alto Juruá foi transferida para Cruzeiro. A área escolhida
chamava-se "Centro Brasileiro" e foi adquirida de Antônio Marques de
Menezes pela União. Localizava-se à margem esquerda do Barracão Central da Casa
de Farinha e algumas barracas isoladas.
● Em 17 de
novembro de 1903, o Território do Acre, incorporado ao Brasil pelo Tratado de
Petrópolis, foi dividido em três departamentos: Alto Juruá, Alto Purus e Alto
Acre, todos independentes entre si e diretamente subordinados ao Governo da
União. Cada departamento era administrado por um Intendente, cargo parecido com
o de prefeito atual, no entanto, nomeado pelo presidente da República, até
1920.
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