| Saber fazer farinha é patrimônio cultural |
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Pesquisadora
valoriza conhecimento tradicional e patrimônio genético. Vale do
Juruá preserva tradições, evitando a pirataria.
Nesse caso, comunidade local é o grupo
humano que se organiza, tradicionalmente, por gerações sucessivas e costumes
próprios e que conserva suas instituições sociais e econômicas como, por
exemplo, os produtores de farinha de mandioca artesanal do Acre, que dominam o
conhecimento de sua fabricação ao longo de gerações.
Exemplo do
sapo
A tecnologia e o seu acesso, na
forma de patrimônio genético e conhecimento tradicional associado, são temas
novos muito discutidos no cenário nacional e internacional. Muitos medicamentos
foram criados a partir de estudos feitos após observação e acesso ao
conhecimento de populações locais. A informação de que um determinado sapo, por
exemplo, produz um veneno que, depois de purificado, pode se converter em um
importante medicamento, talvez tenha sido adquirida ao longo de centenas de
anos, construída a partir de observações feitas por dezenas de gerações que
habitaram certa área.
O acesso ao conhecimento
tradicional por pesquisadores e outros setores da sociedade é importante para a
geração de novos produtos, processos e serviços, atendendo às demandas de
alimentos e saúde. Mas isso não quer dizer que a população local, que originou
esse conhecimento, não deve ser respeitada. É necessário assegurar o
reconhecimento dos direitos das populações tradicionais sobre seus
conhecimentos e seus recursos, pois são elas que mantêm esses conhecimentos,
plantas e animais ao longo de gerações, protegendo-os da total extinção.
Hoje, o acesso e o envio de material
genético, bem como o acesso ao conhecimento tradicional associado a esse
patrimônio existente no território brasileiro, dependem de autorização do
Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) ligado ao Ministério do Meio
Ambiente (MMA), ficando sujeitos à anuência dos membros da comunidade, nos termos
e condições legalmente estabelecidos.
Por isso, para fazer pesquisas
sobre a qualidade da farinha de mandioca artesanal no estado, a Embrapa Acre
está solicitando autorização ao CGEM/MMA. Em reuniões com produtores e
representantes locais, em Cruzeiro do Sul, nos últimos meses, a Embrapa Acre
vem explicando essa legislação e as formas de assegurar os direitos dos
produtores. Pesquisadores, técnicos e produtores assinaram, em uma dessas
ocasiões, um Termo de Anuência Prévia para acessar o conhecimento tradicional
associado à produção de farinha de mandioca com finalidade científica.
Misturas de
coco ou corante
Esse consentimento é necessário
para a realização de pesquisas voltadas para o georreferenciamento das casas de
farinha do Vale do Juruá e identificação de fatores que interferem na qualidade
do produto como misturas de coco ou corante, tempo de prensagem e torração. O
conhecimento dessas questões é considerado acesso ao modo de fabricação local
de milhares de produtores ao longo de décadas e, por isso, deve ser valorizado
e preservado.
Com as autorizações para o acesso
ao conhecimento tradicional e patrimônio genético é possível combater a biopirataria
na região, conservar as comunidades locais com suas tradições e evitar que
pessoas com intenções duvidosas usem essas informações para se apropriar do
processo de fabricação em benefício próprio.
É a comunidade local quem decide
sobre o uso do seu conhecimento, reconhecendo que esse é um patrimônio cultural
brasileiro. A própria comunidade pode se proteger contra a utilização e
exploração ilícita e outras ações lesivas em relação a esse conhecimento. Dessa
forma, a atividade de fabricação artesanal de farinha de mandioca do Vale do
Juruá continuará a preservar a tradição dessas comunidades.
*Engenheira
agrônoma, doutora em Fitotecnia, pesquisadora da Embrapa Acre.
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