Feliz
é a Nação cujo Deus é o Senhor – está escrito na cobertura do
caminhãozinho pau-de-arara intitulado O
verdinho da BR-364
Esse sistema
de transporte muito comum no nordeste brasileiro nos anos 1950 a 1960 sobrevive
em cidades do Estado do Acre. É utilizado, sob sol e chuva, por famílias de
seringueiros, pequenos agricultores e castanheiros lá das bandas fronteiriças
ao Peru.
Nordestinos
daquelas décadas sofriam nas longas distâncias, acomodando-se em bancos duros.
Atravessavam estados, levando famílias inteiras recrutadas para as
obras de construção civil em São Paulo e no Rio de Janeiro. Hoje, viajam
sentados em bancos de madeira com almofadas ou no chão, no percurso
entre vilas e cidades.
O
pau-de-arara chegou a ser considerado um transporte irregular. Melhorou, pelo
menos no Acre.
Na
beira do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, a cerca de 700 quilômetros de Rio
Branco, populares costumam se reunir para assistir embarque e desembarque
de colonos. Eles viajam por longas extensões de ramais (nome dado às estradas
vicinais acreanas), de suas casas à cidade e vice-versa. O pau-de-arara
leva crianças, adultos, gêneros alimentícios e animais. O custo da
corrida varia, a partir de R$ 5. O serviço é semelhante ao de um ônibus
circular, ou seja, o motorista pára nos pontos indicados pelos passageiros.
Por
que pau-de-arara? Câmara Cascudo, o maior folclorista brasileiro, lembra que o
termo designa uma vara utilizada no interior do País para o transporte de
araras, papagaios e outros pássaros. No entanto, ele explica, o termo migrou
para designar o meio de transporte improvisado em razão da algazarra feita
pelas aves, similar à dos passageiros que usam tal veículo, em precário
arranjo, promiscuidade e desasseio. (Montezuma
Cruz)
Um pouco de
poesia. Agripina Rugiero escreve:
Pau-de-arara
De vidas
partidas mulheres sofridas, lá do nordeste. Caatinga tão rala sem roupa na mala, pau-de-arara chegou. A procura da sorte, quem sabe da morte, na obra encontrou. Fazendo o metrô, de brigas pivô, a vida esbarrou. Mulher de barriga na fome e na intriga, a família parou. E do edifício tão alto, o sapato sem salto escorregou. E no pau-de-arara, sua mala sem roupa, pro nordeste voltou.
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