| Loja "tem-tudo" abastece o Acre com raridades |
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Do velho lampião à antena parabólica, comerciante
vende há 40 anos utensílios para a cidade e a floresta.
Uma loja com tradição de 40 anos e onde todo mundo entra /FOTOS M.CRUZ
RIO BRANCO – Em plena segunda-feira o
vaivém de clientes é visto com naturalidade numa loja na Rua Epaminondas
Jácome, à beira do Rio Acre, muito procurada por gente simples vinda dos velhos
seringais, colônias (sítios) e projetos
do Incra.
— Se aqui não tem tudo, tem quase tudo. Venha
ver — convida Tancredo Lima de Souza, 58 anos, proprietário do famosíssimo Bazar
Chefe, ao lado do restaurado Mercado Velho de Rio Branco.
Na manhã de domingo, ele recebeu a visita do
deputado Fernando Melo (PT-AC), antigo conhecido e admirador.
— O Chefe é uma das bandeiras do pujante
comércio acreano. É um empresário próspero, que começou cedo, menino. É um
homem valoroso — comentou o deputado.
Poucos o conhecem pelo nome. Apelidado de Chefe, o comerciante expõe uma miscelânea
de parafusos, correntes, fios, tomadas, soquetes, antenas, raladores, panelas,
panelões, caldeirões, chaleiras, moinhos de carne e de café, bules e rádios em
modelos antigos.
— Só aqui o senhor encontra esses lampiões – diz. Essas
luminárias funcionam
a gás, a querosene e a pilha. Igualmente procurada, a velha lamparina faz parte do cenário do
sertão acreano, que padece com a escuridão. O Programa Luz Para Todos, do
governo federal, ainda não alcançou todas as zonas carentes das regiões do
Iaco, do Purus e do Juruá.
Chefe começou com um capital de apenas 200 mil
cruzeiros (moeda da época), fruto de suas economias. Uniu o antigo ao moderno,
ao pendurar antenas de TV a cabo e mini-parabólicas ao lado de quinquilharias
que brevemente terão a companhia da internet banda larga, cuja expansão foi
prometida para 2010 nesta parte da Amazônia Ocidental Brasileira. — Cobra que não acorda cedo, não engole sapo — fala e ri. A loja funciona diariamente das 6h às 20h; aos domingos, até às 13h. Com essa expressão muito conhecida na região norte, Chefe valoriza o trabalho dele e de oito funcionários chefiados pela filha Cleide Sandra, formada em administração de empresas.
"Chefe": mais conhecido que nota de R$ 50
Donas de casa acreanas encontram ali a
imprescindível agulha para desentupir fogão, vendida por R$ 1. Hoje ela é tão
rara quanto agulhas de som. De uma ponta a outra da loja, o comerciante
amontoa peças de ferro, lataria, alumínio, plástico, colher de pau, pau de
macarrão, baldes, bules esmaltados e louças. São apenas 50 metros quadrados e não
há mais espaço para acomodar novas compras de utensílios. Sobram estoques, que
também se transformou em depósito.
Estilingues, conhecidos na Amazônia por baladeiras, martelos de todos os tipos,
alicates, terçados e foices são muito procurados por crianças e adultos vindos
das colônias e fazendas do interior do estado.
Olha-se de um lado e se vêem tachos, panelas,
bacias de todos os tamanhos vasos, faroletes niquelados e pilhas. Perto do balcão
principal estão caixas com fogos de artifício, sacos de traques e bombinhas
juninas. No alto, Chefe pendurou antiqüíssimos
penicos usados como vasos sanitários desde o ano 1600.
— Tenho de três tamanhos, que variam de R$ 26
a R$ 33 — diz.
Desde menino
O sucesso desse acreano filho de pais
pernambucanos nascidos em Serrinhas começou no final dos anos 1960, quando ele
começou no mesmo ponto, com uma pequena banca. Ainda menino, quando morava na
Colônia São Francisco, ele vendia picolés.
—Trabalho desde seis anos de idade — conta,
exibindo um amarelecido documento no qual está anotada a sua primeira
profissão.
Trabalho nunca foi novidade para Tancredo,
que fazia bolos, pão de milho, criava galinhas e auxiliava seis irmãos. Zeloso
e solidário, ganhou o apelido do próprio pai, o seringueiro Galdino José de
Souza.
— De lá para cá, sempre fui Chefe — lembra. E reconhece que exercia
liderança sobre os demais da família. O Acre inteiro conhece esse homem e admira o trabalho dele – relata Epílogo Pessoa de Brito, proprietário do Hotel Epílogo.
Loja vende todo tipo de utensílio doméstico
Acre rural
Há 40 anos, quando possuía apenas a pequena
banca, Chefe vendia tabaco colhido em
seringais do Rio Iaco. Até hoje ele mantém a tradição. Conheceu a lavoura na
sua vivência nos seringais Cearazinho, de Augusto Ventura; Novo Andirá, da
família Dantas.
— Os últimos lugares onde cortamos seringa
foram as colocações Castelo e Corredeira.
No atacado, para os peões de fazenda que foram surgindo, ele forneceu muitos Congas,
Kichutes, limas para amolar facas e facões, malas duratex, redes, mosquiteiros,
reios e apetrechos para cavalos, tachos, botas sete léguas e sapatões de
borracha.
— Os rádios das marcas “Campeão” (de mesa) e
Motobras (portátil) continuam vendendo bem. O rádio é quem dá notícia e diverte
um povo sem televisão — comenta, referindo-se às “zonas escuras” mapeadas pela
Eletronorte e pelo Governo do Acre. Com dois filhos e um neto, Chefe é o único remanescente de um ramo de comércio notável no período de extinção dos seringais e do início da atividade agropecuária no Estado do Acre, no início dos anos 1970.
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