| Um isolamento que dói |
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Ilhadas quatro meses por ano, famílias de extrativistas e pequenos agricultores reivindicam transporte, saúde, escola e energia.
Montezuma Cruz
Em lotes vizinhos, eles também armazenaram dezenas
de sacos de arroz agulhinha. Só
depois do inverno amazônico poderão
levar com segurança esses produtos para as bancas da recém-inaugurada Central
de Abastecimento (Ceasa) de Rio Branco, porque estão completamente isolados
pelas águas, mesmo a distâncias entre 20 e 30 quilômetros da Rodovia
Transacreana.
— A Ceasa (recém-inaugurada) pode ajudar a gente no transporte, porque tem
muito caminhão lá — opina João Eustáquio Sena, 47. Ele soube que a frota da
empresa cresceu. Duro, segundo ele, é fazer a produção sair dos lotes na
floresta e alcançar a rodovia. Fabricantes artesanais de farinha de mandioca
estão entre as principais vítimas.
Mais de 500 quilômetros de ramais estão
intransitáveis. Na verdade, “sumiram”. Nesta época do ano, canoas de madeira e
lanchas voadeiras com potentes
motores de pôpa ou rabetas (pequenas hélices movem a embarcação) ultrapassam na
marra os arbustos amontoados sobre os rios. Alguns se acidentam ao chocarem com
troncos levados pela correnteza.
No Centro de Florestania existe uma escola com duas salas de aula e uma cozinha sem merendeira. Mães se cotizam para alimentar as crianças. O sacrifício se dá também na área educacional: já no terceiro mês do ano não há professores indicados, nem perspectiva de que as aulas sejam retomadas com regularidade para cerca de 80 crianças dos arredores.
O Programa Luz Para Todos ainda não chegou.
Um motorzinho a óleo diesel fornece energia para garantir a TV e o rádio
ligados, mas só até às 23h. A placa de energia solar ao lado da escola aciona
baterias, mas está sem manutenção desde 2008.
— Foi bom que o deputado veio aqui, ficou uma semana
na floresta, se arranhou na taboca, levou picadas de caba (tipo de marimbondo), até naufragou. Assim, ele sentiu as
dificuldades de transporte, de saúde pública e de educação desses trabalhadores
— comentou Raimundinho. Reunidos com
dirigentes de associações, eles debateram a emenda individual do parlamentar
que obteve R$ 1,9 milhão do Ministério da Pesca e Aqüicultura para a
desobstrução de lagos e igarapés no Acre.
— O Imac dará o parecer ambiental para o serviço e
toda a mão-de-obra necessária poderá ser contratada aqui mesmo na região —
comprometeu-se Melo.
O
risco da má comercialização é grande: com a cheia, um criador de suínos na
Colocação Amélia avaliou em R$ 1,4 mil um lote de porcos levados para Rio
Branco, mas depois de três dias de viagem, só recebeu R$ 900. Essa colocação tem
filiados à Associação Sorriso. Além de colher grãos e castanha, eles criam
bois, ovelhas, patos, galinhas, cabritos e cavalos. Ironicamente, a sorte não
sorriu desta vez para o criador ludibriado.
No
Seringal São Bernardo, o casal Edimar Vasques Cavalcante e Ana Maria, e a filha
Marina não parecem desolados, mas lamentam que as águas tenham invadido o
pequeno barraco onde fabricam cinco toneladas de farinha de mandioca por mês,
numa das margens do Rio Vai se ver. Já enfrentaram o problema outras vezes.
—
A vida toda, há mais de 20 anos, esta é a primeira vez que vemos tantos “furos”
(passagens) na floresta e quase não navegamos no leito do rio — comenta Antônio
Evangelista da Silva, Antônio do Bil,
47, três filhos. Ele tira duas toneladas/mês, que lhe rendem R$ 12 mil brutos.
O produtor mora no alto de um morro, de onde confere suas 46 cabeças de gado
tucura e nelore e avista toda área encharcada.
— Visitei até os varadouros de Xapuri e atendi muita gente em casa, mas tive
que parar — conta, fitando entristecido o repórter. Rio Branco, o maior centro
populacional, comercial, cultural e industrial do estado, estende também seus
limites a Xapuri, a conhecida “terra de Chico Mendes”.
— Os professores vêm de Xapuri, ganham em média R$ 500, e ainda precisam pagar
a própria comida. Eles andam de moto, porque têm que receber o plano de aula na
cidade — relata. Dioclécio ouviu a previsão de que, até maio próximo, as aulas
serão retomadas à tarde e à noite. Ainda sem usufruir do Programa Luz para Todos,
o jeito será usarem a energia produzida por um motorzinho a óleo. Por sorte, vez ou outra um professor consegue hospedar-se com seu José Augusto, que atende como administrador dos problemas da área.
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